HISTÓRIAS QUE SOMOS

Somos as histórias que vivemos. Pode parecer simplista ou cliché mas é mesmo assim. Somos a soma das histórias que vivemos e, às vezes, a subtração daquelas que nunca chegamos a viver. São as histórias vividas e contadas que dão sentido, forma e identidade única ao percurso e legado de cada um. E a soma de todas elas é provavelmente a viagem mais imersiva e rica que podemos fazer para tentar compreender o vasto e complexo tecido sociológico e antropológico destas pessoas-lugares.

Também, as esquinas, encostas, ruelas, largos e becos de cada um dos bairros que percorremos todos os dias guardam estórias que jamais seriam reveladas se não a vontade quase intrínseca e generosa das pessoas que os habitam para as partilhar e transformar. Quem conta um conto acrescenta uma nova forma de sentir.

HISTÓRIAS QUE SOMOS, é a atividade deste projecto que pretende dar voz e imortalizar as memórias destes lugares e das pessoas que os têm vivido e transformado com as suas próprias experiências. Não pretende ser uma recolha romanceada, nem sujeita a montagens ou edições. Queremos que as histórias sejam apresentadas com a mesma crueza, naturalidade e espontaneidade de quem as conta. Sem guião ou encenações, este é o início daquilo que pretende ser um museu virtual com as memórias e relatos das pessoas que tem feito destes bairros, lugares únicos na história da cidade de Lisboa.

Um especial agradecimento ao voluntário Miguel Oliveira que registou e compilou todo o material áudio e fotográfico para que esta recolha se tornasse possível. Obrigada Miguel!

Casal Esperança

84 e 88 anos

MOURARIA

A VIDA, às vezes, é surpresa. Na maioria, rotina. É nesses momentos de surpresa, em que o chão treme, que descobrimos novos limites e reinventamos a forma como caímos e nos levantamos. Um dia, a D. Helena também caiu. E magoou-se à seria. Felizmente estava lá o Sr. Orlando. Ela aprendeu a viver com uma versão de si mais frágil e dependente. E ele descobriu outra força, daquelas que dá para amparar dois corações ao mesmo tempo. Antes da queda da D. Helena, o maior abanão que o casal Esperança tinha sofrido, provavelmente tinha sido o embate da paixão que sentiram quando se viram pela primeira vez. Depois disso, a vida foi-se fazendo. De conquistas, viagens, rotinas e muito poucas quedas. Quando a rotina acabou, o chão voltou a abanar. E, hoje as conquistas têm sido outras. Com mais surpresas e esperança também

D. Amélia

84 anos

MOURARIA

Há imagens, sons, cheiros e sensações que ficam cristalizados para sempre. É como se o tempo não tivesse passado por ali. A D. Amélia cristalizou muitas coisas. Sobretudo a jovialidade, capacidade de comunicar e coragem para dizer não. Tem 84 anos mas a voz, por exemplo, ficou nos 40. Não foi só a voz que ficou parada no tempo. Há outras coisas que a idade de Amélia não explica nem traduz. Gosta de ler, conversar e estar informada sobre tudo, inclusivé tecnologia, política, culinária e crochet. É divertida, independente e uma comunicadora nata, não tivesse ela sido telefonista durante 40 anos. Diz tudo na cara, pr’o resto do mundo ouvir porque não tem tempo nem paciência a perder. Talvez seja por isso que, desde cedo, aprendeu a reconhecer as (suas) coisas e pessoas preferidas. Ninguém sabe quem ou o quê ela ouve todos os dias, para continuar a vestir-se de feminilidade e coragem. Mesmo nos dias em que não há ninguém para a ajudar a descer a escadaria íngreme de sua casa, a vida continua. Com rímel e nada de arrependimento.

D. Elisa

81 anos

MOURARIA

D. Elisa sempre foi uma “menina” prendada. Com as mãos e com a família. Começou a trabalhar aos 7 anos em Carregal do Sal como dama de companhia mas só aos 14 é que veio para Lisboa. Aprendeu a fazer de tudo, até a colar varizes com fita cola. Conta que nessa altura, “já olhava para a sombra” mas só aos 19 é que se apaixonou. Na noite em que isso aconteceu ela estava de luto da sua avó. Por isso é que recusou o convite d’ele para dançar. Naquele baile de Santo António, ele dançou com outra e ela teve medo de um luto ainda maior. Felizmente, e como ela diz “as coisas certas vêm sempre parar-nos às mãos” e 10 meses mais tarde, vestiu um vestido emprestado para casar-se com ele. Tornou-se uma mãe devota e leal companheira da sogra. Teve poucas amigas e como ela própria diz, com nenhum tempo para “petinguinces”’. A vida é curta demais, por isso é que sempre que havia oportunidade e vontade alinhava nos convites do seu marido para aproveitarem a vida em bailes, concertos, jantares, idas ao teatro e viagens. Hoje, a D. Elisa tem 81 anos, é mãe de 2, avó de 4, tia de 5 e viúva de 1, para sempre. Nas noites de Santo António, o coração dela ainda dança e a saudade embala-a.

D. Matilde

77 anos

GRAÇA

Dona de um sentido de humor apurado, esta beirã chegou à Graça com 1 ano e meio para crescer, amadurecer e ficar. Quando era criança, adorava jogar às escondidas e saltar à corda, mas nunca foi uma saltante. Tinha medo de cair. Esse medo de cair acompanhou muitas das suas (não) escolhas até aos 60 anos. Depois do filho criado e de muita ‘corda dada’, a D. Matilde escolheu o caminho mais difícil e divorciou-se. Hoje, apesar das rugas e da pouca força nas pernas, a D. Matilde é uma avó “galinha” e uma mulher mais desempoeirada e segura. Para a D. Matilde, ser MÃE foi o verdadeiro ‘salto’ da sua vida, uma espécie de milagre consumado em formato de colete salva-vidas. Que a amparou em tantas quedas e lhe deu coragem para a sua maior aventura: a liberdade.